De alguma forma eu de novo me recuperei da dor de você. De você. E vivia bem, e feliz. Eu havia decidido que não ia ser anjo a esperar alguém pra me salvar como você havia sido. É, como se eu fosse anjo. Seria eu a única que vira suas asas? Teria você asas?! Provavelmente só mais uma loucura minha, loucura de quem ama. Igual as loucas vezes que acreditei em você. Eu ia voltar para minha casa, após um dia com risos e amigos. Os amigos já tinham ido, e o riso continuava no meu rosto. Caminhei e caminhei, mas por lá eu me perdi. Era fim de tarde, horário de muita gente na rua, e eu caminhando sem saber onde estava. Olhava para o chão, e num instante mínimo no qual eu ergui o olhar pensei ter visto olhos conhecidos passando. Talvez impressão, eu queria acreditar que era impressão. Seria o mesmo olhar que conseguira me fazer pular, me erguer, me derrubar. Hum, ou engano meu, ou a sensação que me queimava por dentro estava certa. Mais uns dois minutos andando perdida, parei e olhei para os lados atrás de algo para me guiar.
- Você sempre perdida.
A voz vinha das minhas costas, e lá estava você sorrindo com graça do meu desajeitar ao te ver. Se aproximou, carbonizando minhas entranhas no/com frio dos teus olhos, e sem perguntar pôs-se a me conduzir. Eu fiquei calada, só ouvindo seu alegre chiar. Quando você parou eu parei - sem erguer o olhar dos meus pés, mantendo o rosto para o chão, com medo de te olhar(enxergar).
- A gente não tem mais jeito?
Balancei a cabeça.
- Não pensei que você fosse me abandonar.
Eu levantei a cabeça com olhos muito assustados. Você me parecia uma criança dizendo aquilo: tão frágil, sem proteção e solitária criança no mundo. Órfã e quebradiça. O enorme anjo em forma flébil. (Ou seria a minha loucura?) Seus olhos de acusação abandonaram o local.
E eu lá. Sem reação. Sempre perdida.
- Vocês devem estar pensando "ai, que coisa, ela não para de escrever essa coisa chata de mundo onírico!". Que posso fazer?, eu penso o mesmo. Mas nem tudo que eu escrevo eu escolho escrever. That's life.